“
E eu cresci ouvindo: “querer é poder”. Sempre quis tanto, sempre
pude tão pouco. Acabei por refazer aquela frase que ouvia desde a
infância: “querer você pode, poder já é outra nota da canção”. E assim,
meio que de um jeito torto, fui seguindo, acho que crescendo.
As coisas acontecem quando você não quer. Quando quer, dificilmente
acontecem. É um jogo de se fazer do contra. Precisa estar não desejando
para que aconteça. Precisa não estar pensado pra que chegue. Precisa
estar de mãos abertas para deixar que vá.
Ainda falando sobre as memórias da infância, perto da escolinha do
primário, tinha um jardim com aquelas plantinhas que se fecham
automaticamente sempre que tocamos. Não lembro o nome, mas lembro da
planta. Acho que o coração é meio ela, né? Sempre que tocam nele de um
jeito mais forte, mais grosso, sempre que o batem, o pisam, ele se
fecha, se tranca, entra em defesa. Tenta se recuperar. Sofre calado.
A vida é um mistério tão agridoce. É uma caçada ao tesouro tão
desleal. Não nos dão mapas, não nos mostram onde ficam os “x”. Só dizem:
depois do arco-íris tem um baú cheio de ouro. E volta e meia você vê um
arco que faz saltar a tua iris, mas não acha o pote, ou melhor, nem
sabe onde começa ou quando termina aquele mix de sete cores.
E assim, meio que de um jeito torto, fui seguindo, acho que
crescendo. Não vou dizer que sempre ri, mas não só chorei. Ninguém é
feliz o tempo todo, por que seria o tempo todo triste? Ou melhor, o que é
estar feliz? O que é estar triste? Isso é sentimento? É estado? É coisa
que se há de medir?
Existem coisas, ou sentimentos, ou apegos, ou nomes, ou frases, ou
gestos, ou sorrisos, ou objetos, ou livros de poemas, que a gente não
joga fora. Ficam ali. Tomando poeira, enfeitando a estante feito
porta-retratos de família, de coração. Porta-sentimetos. Porta, dessas
que se fecham e se abrem, e se pulam janelas e muros.
Têm coisas que a gente não quer jogar fora. Pelo ter. Pelo ser. Pelo
alguma coisa. Alguma coisa que justifique, que fique, que faça jus.
Alguma coisa que vá, mas que volte, ou que não vá, mas não só fique.
Alguma coisa de verdade. De ver. Alguma coisa que fique. Que faça jus.
Que justifique.
Hoje já não me permito saber. Prefiro não saber. Existem perguntas
que se feitas, causam tsunamis. Se eu não posso ouvir as respostas que
quero, que eu não faça as perguntas que desejo. É errado, é ridículo,
mas como diz o poeta: “Nada em mim foi covarde, nem mesmo as
desistências: desistir, ainda que não pareça, foi meu grande gesto de
coragem”.
A gente nunca sabe se vai durar uma noite, um dia ou uma vida. A
gente só sabe depois, se vai valer a pena. A gente na verdade, nunca
sabe. Só supõe. Mas, ainda retornando as frases do tempo de criança,
aquele clichê sabor naftalina me veio à boca: “o que não tem remédio,
remediado está”. E assim, meio que de um jeito torto, fui seguindo, acho
que estou crescendo.
”
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