Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode
desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir
de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta,
medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do
que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por
dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os
lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais
fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o
homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se
ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você
depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio,
afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a
violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele
com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se
repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que
suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja
vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele
se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de
ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa,
recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada,
devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e
ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente
para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua
algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não
precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou
que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos
travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos.
Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo
seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente
na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a
alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de
não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das
pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da
vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não
interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada,
ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la.
Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela
felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente
quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou,
de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como
foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas
sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.
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