
Entender que as coisas não estão indo bem não me dá a chance de pisar
no freio e descer do carro. Sempre estamos lá, mais vazios, menos
interessados na companhia um do outro. Aumento o rádio diversas vezes
enquanto toca nossa música. Ele já esqueceu do quanto ríamos enquanto
nos beijávamos com o carro parado na beira da estrada. As nuvens escuras
continuam correndo atrás de nós, não sorrimos e não temos coragem de ir
embora. Porque ir embora significa deixar uma parte de algo ou alguém e
fazer com que se torne apenas uma lembrança. E ele tem medo de
lembranças, assim como eu. A noite chegou mais uma vez, o frio estilhaça
as janelas da minha alma. Ele dorme inconsciente da ausência que sinto,
do lado oposto do muro que construímos com a falta de paixão e pela
nossa incapacidade de fazer disso um amor.
Desci do carro com as pernas tremendo, pronta para encarar o brilho
do sol que vinha de dentro de mim. Hora de tomar o volante nas minhas
mãos, e seguir as estradas sozinha. Sem lembranças, sem ele e sem
lugares e caminhos marcados.
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