“Eu não consigo mais fazer dos meus dias os
melhores, foram poucas as vezes que conseguir alinhá-los corretamente
comigo. Nem tão reto e nem tão torto. Li há algumas semanas atrás, em um
jornal que pessoas com a vida fora de ordem poderiam ter problemas
sociais ou infartos. No mesmo momento eu imaginei todas as pessoas do
mundo juntas. Imaginei todas elas trancadas em um mesmo quarto
branco-amarelado, com um turbilhão de coisas esparramadas, aquela
bagunça do caralho. Estavam trancadas por terem o quarto bagunçado e
serem anti-sociais. Uma coisa puxa a outra, nesse caso. Pensando bem, em
todos os casos. Mas por algum problema, elas estavam juntas naquele
suposto quarto – mesmo sendo anti-sociais, estavam juntas. O jornal
estava de certa forma errado. Elas não eram anti-sociais, digamos que
uma parte não e outra sim. E eu mesmo me vi naquele quarto com aquelas
pessoas, estavam sentadas cabisbaixas e ao mesmo tempo amedrontadas. E o
medo não era de estarem com outras pessoas. Devia ser pelos infartos.
Elas mesmas sabiam do sério risco que estavam correndo por serem
solitárias. A culpa não era de si própria. A culpa era de alguma forma
de todas as pessoas e acho que a mídia, por meio de jornais também
espalhados pela cidade, estava querendo dar um ponto final nessa merda
toda. Por todos serem anti-sociais. E não me leve a mal, mas eu sou
anti-social. As vezes fico feliz comigo mesmo por não ter alguém para
compartilhar a minha felicidade ou ficar feliz com ela. Sabe, cara,
estar trancado naquele quarto com outras pessoas era bom. Nem tanto, mas
era. Pouco a pouco nós íamos trocando palavras, gestos e pensamentos.
Um bando de loucos. Loucos mesmo. Era uma puta loucura aquele
planejamento, mas estava acabando com a minha solidão de certa forma.
Porra, a solidão de todos. Eu até mesmo aprendi a arrumar o meu quarto, o
lugar que eu tanto fico preso, por dias, semanas e meses. E hoje,
tampouco fico lá! Por culpa do jornal. Aliás, da minha imaginação. E
graças a ela hoje não corro risco de nenhum infarto por solidão. Seria
um porre morrer por solidão.”
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